Conceitualização cognitiva dos atos suicidas

foto: Jairo Alzate

Por: Roberta Joaquim

Foto: Jairo Alzate via Unsplash

A conceitualização cognitiva dos atos suicidas se inicia no primeiro contato com o paciente e evolui conforme as sessões acontecem. No primeiro momento, o terapeuta foca em compreender e gerar as primeiras hipóteses acerca dos fatores cognitivos, emocionais, comportamentais e situacionais relacionados à crise suicida mais recente, orientando assim a sessão de avaliação inicial.

Após essa primeira hipótese, o terapeuta evolui sua atenção para compreender e descrever a crise suicida, a partir do modelo cognitivo. É nesse momento que o paciente conta sua história e o terapeuta, de forma acolhedora e esperançosa, a escuta e a compreende a partir dos seguintes elementos:

Evento eliciador: “Quais foram os momentos que eliciaram a crise suicida?”;

Pensamentos automáticos (motivação): “Quais foram as motivações?” “Quais foram os pensamentos do paciente nesse momento?”

Podem ser exemplos de pensamentos automáticos relacionados a razão ou motivação da tentativa: “Eu não aguento mais me sentir assim” “Isso não parece ter fim” “Se eu morrer será melhor”;

Emoção: “Quais emoções estavam presentes?”;

Comportamento: “O que ele fez naquele momento?” Momento este antes da tentativa de suicídio;

Pensamentos automáticos (intenção suicida): “Quais foram os pensamentos que o ajudaram a tomar a decisão de tentar o suicídio?”

São exemplos: “Eu quero que isso pare, e a única maneira é morrer” “Agora vou terminar com isso, com todo esse sofrimento”;

Tentativa de suicídio: “De que forma houve a tentativa de suicídio? “Qual foi o método utilizado?”

Podem ser exemplos: tomar medicações, usar objetos cortantes, etc.

É importante considerar as habilidades do terapeuta em estabelecer e manter a relação terapêutica, esse será um momento bastante desafiador e de extrema importância para o processo terapêutico, proporcionando a compreensão da conceitualização cognitiva e do planejamento terapêutico. Nesse momento, o terapeuta pensa como usar da melhor forma possível a teoria e suas habilidades a favor do paciente.

Em seguida, o terapeuta procura compreender e estabelecer uma linha do tempo da crise suicida atual e das anteriores, de forma colaborativa com o paciente, convidando-o de forma gentil, respeitosa, mas diretiva (perguntando abertamente) a compreender suas crises. Nesse momento, além dos elementos descritos anteriormente, é importante compreender à reação a tentativa de suicídio, isso é uma adicional importante para o processo terapêutico. A linha do tempo não somente auxilia a conceitualização cognitiva, como oportuniza ao terapeuta avaliar e direcionar estratégias de coping a serem utilizadas futuramente.

Por fim, a conceitualização cognitiva parte da compreensão dos fatores de vulnerabilidades disposicionais e vivências iniciais, o que dá ao terapeuta a oportunidade de compreender a relação desses elementos com as crenças centrais e intermediárias, pensamentos automáticos chave e processos cognitivos relacionados ao suicídio (fixação atencional, inabilidade de gerar outras soluções). Vamos a um exemplo como forma de ilustrar uma conceitualização dos atos suicidas:

 Consideramos que nosso paciente seja Fernando, 43 anos, empresário, casado e sem filhos. Essa é a sua segunda crise suicida, o que gera preocupação em sua esposa e família e os fazem procurar auxílio de um terapeuta. A crise atual de Fernando se iniciou quando ele se deparou com uma crise financeira em seu negócio próprio o que o levou experimentar emoções intensas e a tomar muitas medicações. Fernando foi socorrido por sua esposa e passou por internação e avaliação psiquiátrica após a crise, sendo indicado à TCC. Vamos considerar as seguintes informações que o terapeuta pode compreender para conceitualizar do ato suicida de paciente:

Fatores de vulnerabilidade: desesperança e perfeccionismo.

Vivências iniciais: pais críticos e perfeccionistas; crises depressivas ao longo da vida do paciente.

Crenças centrais: “Sou um fracasso, então não vale a pena viver”.

Crenças intermediárias: “Se eu sou um fracasso, então devo morrer”; “Se eu não consigo ter sucesso, então sou um fracasso”; “Se nada deu certo até agora, não tenho mais esperança”.

Pensamentos automáticos chave: “Eu nunca conseguirei”; “Sou um péssimo empresário”; “Nunca vou conseguir ser o melhor”.

Processos cognitivos relacionados ao suicídio:  se deparar com os remédios em sua gaveta do escritório o levou a considerar ainda mais a ideia do suicídio (fixação atencional).

Sendo o tratamento de pacientes suicidas um desafio aos terapeutas, alertamos e sugerimos que você possa solicitar auxílio sempre que necessário a um supervisor para, não somente, direcionar o caso de forma a manter a segurança do paciente, mas, também, para que você possa proporcionar a sua própria segurança em intervir em casos desafiadores.

Desejo que este texto auxilie em sua prática clínica.

Wenzel, Brown e Beck. Terapia Cognitivo-comportamental para pacientes suicidas. Trad: Marcelo Figueiredo Duarte; revisão técnica: Neri Mautício Piccoloto – Porto Alegre: Artmed, 2010

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