Por: Roberta Joaquim
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O Método Socrático (também chamado de questionamento socrático ou diálogo socrático) é considerado, pela maioria dos autores que discorrem sobre o tema, como um estilo de pensar, que conduz a sabedoria e felicidade, através do conhecimento do desempenho da mente, seu funcionamento e suas armadilhas propiciando visão mais clara das coisas e, com isso, conquistando uma vida melhor e um humor melhor (Farnsworth, 2021).
Sócrates dialogava com homens sábios, considerados especialistas, para saber se eles eram realmente sábios. Ele dialogava com políticos, sofistas e comerciantes sobre temas como ética, moral e política. Observou nesses diálogos que os especialistas não notavam as contradições de suas próprias ideias, pois não tinham uma postura de aprendizes e sim de especialistas, considerada por Sócrates “vaidade intelectual”, dificultando refletirem sobre o tema que dialogavam (Farnsworth, 2021; Robertson, 2018).
Os diálogos de Sócrates possibilitaram a investigação moral a todas as pessoas, pois não necessitava de uma base filosófica específica ou um método específico, bastava dialogar com outros e/ou si mesmo a partir de uma postura humilde e aberta a novos aprendizados (Robertson, 2018). Sócrates estendeu seus diálogos à população de Atenas, entretanto não se considerava um professor por acreditar que professores adotavam uma postura muito professoral, compartilhando o conhecimento com seus alunos sem estimular nenhum nível de reflexão. Ao invés dessa postura, Sócrates adota uma postura de falta de conhecimento com maior interesse em aprender e refletir, marca registrada de seu método. Da mesma forma, ele incentivava seus interlocutores a praticarem ativamente o aprendizado, a serem questionadores (Overholser, 2018).
Importante lembrar que Sócrates nada escreveu ou publicou sobre o seu próprio método, pelo contrário, ele afirmava que a palavra escrita não era confiável, pois considerava que a leitura estimula a memorizar ideias e que isso não proporciona uma postura ativa do leitor, e que ideias úteis eram alcançadas entre duas mentes. (Overholser, 2018). O foco de seus diálogos estava na compreensão de conceitos abstratos considerados pelos interlocutores. Conhecemos o método de Sócrates por seu discípulo Platão, através da obra ‘Os Diálogos de Platão’, publicada em 1892 e 1937, por Benjamin Jowett (Robertson, 2018).
Platão é considerado por muitos autores a fonte mais fidedigna da obra de Sócrates, mas há quem discorde (Robertson, 2018). Outros diálogos de Sócrates foram descritos por Xenofonte, um oficial ateniense e amigo de Sócrates. Ambos descrevem o estilo interativo de diálogo, permeado por troca e exploração racional de ideias, que difere dos filósofos sofistas que utilizavam a persuasão e dialogavam com aprendizes passivos. Platão descreve o método de Sócrates como uma terapia filosófica caracterizada por um diálogo, de perguntas e respostas, com objetivo de curar a ele e a outras pessoas da presunção intelectual, por isso se considerava mais aluno do que professor, (Overholser, 2018; Robertson, 2018).
Com seu método, Sócrates tinha por objetivo promover o aprendizado através do confronto de ideias, gerando dúvidas sobre o conteúdo do diálogo em seus interlocutores, conduzindo-os à construção de uma perspectiva mais ampla referente ao tema que se discutia e, principalmente, a pensar por conta própria. Essa forma de conduzir o raciocínio é chamada de Maiêutica, descrita na filosofia como o “parto do saber”. Maiêutica é o processo de conduzir o interlocutor a construir o seu saber e seus objetivos sem nenhuma interferência. Esse objetivo era alcançado através de uma série de perguntas abertas que consistia inicialmente em induzir a confusão de ideias da parte de quem dialogasse com ele (conhecido como “ironia socrática”), gerando sensação de ignorância ao objeto discutido, considerado um hiato no raciocínio lógico, para, então, auxiliar o interlocutor a se mover de forma gradual e lenta ao insight e assim desenvolver uma nova perspectiva e uma nova forma de pensar (esse processo é chamado de Elenchus pela filosofia). (Overholser, 2018)
Consideremos que o método propõe uma postura baseada na indagação, respeito, humildade e dúvida, gerando um diálogo onde desafio e refutação são considerados parte do processo e encarados como um ato de amizade entre os que dialogam. Você deve estar se perguntando, porque sofrer refutações acerca de suas ideias é um ato de amizade? Porque o método de Sócrates considera a experiência de ter uma ideia confrontada, uma oportunidade para reavaliar opiniões ou entender a forma de pensar, um do outro. Sócrates dizia que queria ter amigos que refutassem as suas ideias. (Farnsworth, 2021).
Façamos aqui um paralelo com a psicoterapia, em especial a TCC, no início do processo terapêutico trabalhamos com o nosso cliente no automonitoramento de suas emoções e pensamentos. Esse processo possibilita a autoconsciência, desenvolve o autoconhecimento para assim, posteriormente convidar o cliente a questionar e avaliar suas interpretações (pensamentos) dos eventos. Esse questionamento, de modo a construir o seu saber sem interferências (Maiêutica), é efetuado de forma sistemática tornando assim possível alcançar a consciência do nível mais profundo de nossas interpretações, as nossas crenças. Sendo o resultado desse processo a mudança de perspectiva mais duradoura e consistente no modo como ele enxerga a vida. Fato que o leva a diminuir o seu sofrimento e buscar uma vida melhor (Robertson, 2018).
Alguns elementos são considerados comuns e essenciais ao método. Entretanto, a maioria dos textos filosóficos acerca do método socrático não fornece instruções diretas de como fazê-lo. Entretanto, compreender o espírito com que Sócrates conduzia o diálogo e os elementos de seu método vão auxiliá-lo na compreensão de como praticá-lo, vamos aos elementos (Farnsworth, 2021):
- O método compreendia perguntas abertas e perguntas sobre a concordância do interlocutor sobre o que Sócrates dizia durante o diálogo. Não se tratava de uma palestra e Sócrates não apresentava uma postura argumentativa ou inquisitória;
- O foco do diálogo estava na consistência das ideias apresentadas pelos interlocutores. Então Sócrates conduzia suas perguntas a fim de pesquisar alguma inconsistência nas ideias apresentadas com o objetivo de promover a dúvida. Note que ele não dizia que eles estavam errados ou que as ideias eram falhas, somente demonstrava a inconsistência;
- As perguntas tinham o objetivo de mostrar o que estava subjacente, ou seja, o significado idiossincrático das ideias do interlocutor;
- Sócrates se baseava em dados concretos para conduzir o seu raciocínio e atingir o objetivo do método. Esses dados podiam ser pessoas ou situações do dia-a-dia e analogias;
- Ao final Sócrates confessava sua ignorância sobre o tema discutido terminando o diálogo com um impasse, conduzindo o interlocutor a revisitar as suas “verdades”.
Sócrates é considerado um “escultor de mentes” ou “parteira do saber”, isso porque seu método conduz sem interferências ao saber (Farnsworth, 2021), o que gera comparações ao papel dos terapeutas nos processos psicoterápicos, que imbuídos do espírito do método socrático conduzem seus clientes a buscarem suas próprias respostas ao invés de promoverem longas explicações ou darem respostas às suas indagações, prática conhecida na TCC como descoberta guiada. Praticar seu método é uma arte e os terapeutas precisam estar abertos à atitude de conduzir a descoberta guiada com a postura de “ignorância socrática” (Overholser, 2018; Robertson, 2018).
Acusado de corromper os jovens atenienses e de oposição impiedosa à algumas ideias da época, Sócrates foi julgado, considerado culpado e condenado à morte por um júri de 500 homens atenienses. Ele foi obrigado a tomar cicuta, um veneno, e, mesmo tendo chances de fugir, ele se manteve fiel às suas virtudes e aguardou o momento de sua morte com dignidade. Após sua morte, Platão fundou a primeira instituição acadêmica do ocidente (388 e 385 a.C.) sendo conhecida como Academia. Seu objetivo era estabelecer um local para que estudiosos pudessem compartilhar suas experiências em geometria, matemática, filosofia e direito. Esse local existiu até 529 d. C., mesmo após a morte de Platão, que ali viveu e trabalhou até a sua morte (Robertson, 2018; Overholser, 2018).
Colocando em perspectiva as bases filosóficas da TCC, vale relembrar que Beck se respaldou em pressupostos da filosofia estóica, em especial Zenão de Cítio, Crisipo, Cícero, Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio e das filosofias orientais como o Budismo e Taoísmo. (Beck, Rush, Shaw & Emery, 1979; Beck, 2021). Essas bases, cada qual com suas particularidades, pressupõem que as perturbações da humanidade são consequência de como o homem as enxerga e que a regulação emocional pode ser modificada pela forma como enxergamos as situações (Beck, 2021)
Considerando os aspectos acima, principalmente o papel central da cognição nas perturbações emocionais e na sua cura, Beck (1979) considerou que a forma de dialogar de Sócrates era uma forma elegante, empática e colaborativa para intervir nas cognições chave e crenças e assim mover os clientes a insights durante o processo terapêutico como, também, entre as sessões à partir do plano de ação. Esse aspecto é central à prática da TCC, fornecendo ao terapeuta a possibilidade de conhecer as dificuldades, pontos fortes, estilo de vida, estratégias de enfrentamentos e o processamento de informações de seus clientes, a partir da perspectiva do próprio, sem fazer inferências ou interpretações com postura ativa, conduzindo-o de forma empática a compreensão de seu sofrimento (Overholser, 2018; Beck, 2021, Beck, Rush, Shaw & Emery, 1979)
Referências:
Farnsworth W. (2021). The Socratic Method: a practitioner’s handbook. Boston, Massachusetts: Godine
Overholser J. (2018). The Socratic Method of Psychotherapy. New York: Columbia university Press, New York.
Robertson D. (2018). The Philosophy of Cognitive-behavioural Therapy (CBT): Stoic Philosophy as Rational and Cognitive Psychotherapy. New York: Routledge.
Beck, A. T., Rush, A., Shaw, B., & Emery, G. (1979). Cognitive Therapy of Depression. New York: The Guilford Press.
Beck, J. S. (2021) Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. 3 ed. Porto Alegre: Artmed.