Por: Roberta Joaquim
A depressão é considerada o transtorno mental mais frequente e atinge 300 milhões de pessoas de diferentes faixas etárias em todo o mundo sendo, inclusive, a principal causa de incapacidade laboral, social e pessoal. A depressão pode levar ao suicídio e é a principal causa de morte entre 15 a 29 anos. (https://www.paho.org/pt/topicos/depressao)
A meta-análise de Racine et al (2021) objetivou, entre outros, atualizar os dados de estimativas de sintomas clínicos de depressão e ansiedade em crianças e adolescentes, do início da pandemia de COVID-19 até a realização da pesquisa, e compará-los com o período pré-pandêmico. Esta pesquisa concluiu pela prevalência de sintomas depressivos e ansiosos durante a pandemia do COVID-19 e que os mesmos dobraram em comparação com as estimativas da pré-pandemia. Na meta-análise foram considerados 29 estudos e 80.879 jovens em todo o mundo e, atentando para depressão que é objeto deste nosso texto, ressaltamos a taxa de incidência de sintomas de depressão na população analisada durante a COVID-19, que foi de 25,2%, ¼ da população, enquanto que no período pré-pandemia era estimado em 11,6%. Diante desses dados podemos refletir acerca da necessidade do cuidado emocional dessa população, sendo a preparação do terapeuta essencial para conceder aos seus jovens uma terapia que possa auxiliá-los a lidarem com as sequelas do COVID-19, a “pandemia emocional” (https://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/article-abstract/2782796)
Compreender o modelo cognitivo da depressão em crianças e adolescentes é primordial para direcionar o tratamento de maneira mais eficiente. Na depressão, crianças e adolescentes demonstram uma visão negativa de si, das outras pessoas, das situações da vida, do futuro e ainda possuem uma autocritica intensa. Considerando esse modelo e os pressupostos da TCC, as crianças e adolescentes podem apresentar a sua sintomatologia em todas as esferas do modelo cognitivo, ou seja, sintomas emocionais, cognitivos, comportamentais e fisiológicos. Dentre eles os mais comuns em cada esfera são (Friedberg e McClure, 2019):
Sintomas emocionais: as crianças geralmente apresentam humor deprimido e por vezes irritadiço, já os adolescentes podem apresentar anedonia tanto em afetividade como comportamentos. Em ambas as fases de desenvolvimento a desesperança, pensamentos suicidas e desejo de morrer podem também estar presentes.
Sintomas cognitivos: atribuições negativas estáveis, generalizadas e globais para o insucesso e específicas para o sucesso; visão negativa de si, dos outros e do futuro e, ainda, autocrítica intensa (na maioria das vezes esse sintoma é identificado em crianças na segunda e terceira infância e na adolescência). Geralmente crianças e adolescentes descontam aspectos positivos e fazem muitas previsões negativas acerca do futuro, também sendo comum a descrição desses pacientes por outras pessoas como distraídas ou perdidas no tempo, identificando comprometimento na atenção e concentração. As principais distorções cognitivas são: lentes negativas e/ou pensamentos excludentes, o positivo não conta e/ou Ogro caolho, ampliando o negativo e/ou pensamento espelho de circo, rótulos pejorativos e/ou rótulo besta (Friedberg, McClure e Garcia, 2011; Stallard, 2021).
Sintomas comportamentais: isolamento, teimosia, brigas, dificuldade de se relacionar, agitação psicomotora, cansaço ou movimentos mais lentos, retraimento e pouco envolvimento com atividades prazerosas, inclusive considerando que as atividades possam ser entediantes. Crianças na segunda infância apresentam dificuldades em expressar sentimento e por esse motivo alguns comportamentos são mais frequentemente identificados como dificuldades em se relacionar com outras crianças e/ou familiares, comportamentos disruptivos e agressivos.
Sintomas fisiológicos: crianças na segunda infância apresentam com maior frequência queixas sintomáticas em relação à fase da adolescência. As queixas mais comuns são dores abdominais e dores de cabeça. Ainda na infância, são comuns queixas em relação ao sono (muito ou pouco sono, dificuldade em adormecer ou despertar) e à alimentação (apetite diminuído e ganho ou perda de peso). Na adolescência é comum a presença de sintomas como alterações no peso e apetite.
Em relação à adolescência é preciso que o terapeuta avalie sintomatologias específicas dessa fase do desenvolvimento bem como a avaliação do que é proveniente de uma adolescência “normal” (Aberastury, 1989). A prevalência de comorbidades é maior nessa fase do desenvolvimento como, por exemplo, transtorno de ansiedade e abuso de substâncias. Comportamentos de risco, antissociais, dificuldades acadêmicas e de relacionamento com pais e/ou cuidadores também são comuns em pacientes adolescentes deprimidos (Friedberg e McClure, 2019).
Ao considerar o modelo cognitivo da depressão na infância e adolescência é necessário considerar a avaliação do potencial suicida do seu cliente, seja ele criança ou adolescente. É menos comum que crianças na segunda infância apresentem potencial suicida, já na terceira infância e na adolescência são mais frequentes tanto o potencial suicida quanto os comportamentos autolesivos. Lembre-se que compreender o modelo cognitivo do suicídio irá ajudá-lo a traçar estratégias eficientes para o seu manejo (veja nosso texto sobre modelo cognitivo do suicídio. https://habilitasupervisao.com.br/tcc-e-suicidio/)
Queremos que você, terapeuta, se recorde que compreender o modelo cognitivo específico para cada transtorno irá auxiliá-lo no direcionamento do tratamento, mantendo-se no foco principal do sofrimento de seu cliente.
Esperamos que esse texto possa auxiliá-los em sua prática clínica diária!
Referências:
OPAS/ OMS – Organização Pan-Americana da Saúde. Depressão. [s.d.] “Disponível em: https://www.paho.org/pt/topicos/depressao. “Acesso em: 20/jul/2022”
RACINE N, MCARTHUR BA, COOKE JE, EIRICH R, ZHU J, MADIGAN S. Global Prevalence of Depressive and Anxiety Symptoms in Children and Adolescents During COVID-19: A Meta-analysis. JAMA Pediatr. 2021;175(11):1142–1150. doi:10.1001/jamapediatrics.2021.2482 https://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/article-abstract/2782796
FRIEDBERG, R.D.; McCLURE, A prática da terapia cognitiva com crianças e adolescentes. 2° edição. Porto Alegre: Artmed, 2019.
FRIEDBERG, R.D.; McCLURE, J.M.; GARCIA, J.H. Técnicas de terapia cognitiva para crianças e adolescentes: ferramentas para aprimorar a prática. Porto Alegre : Artmed, 2011.
ABERASTURY, A., & KNOBEL, M. A adolescência normal. Porto Alegre: Artmed, 1989
STALLARD, P. (2021). Bons Pensamentos – Bons Sentimentos: Guia de Terapia Cognitivo-Comportamental para Adolescentes e Jovens Adultos. [[VitalSource Bookshelf version]]. Retrieved from vbk://9786558820109