Modelo Cognitivo da Depressão

Por: Fabiana Romanini

A depressão é um transtorno que acomete em torno de 5% da população adulta, segundo a WHO (World Health Organization) e é uma das principais causas de incapacidade no mundo, quadro significativamente agravado pela pandemia. Esse transtorno de humor traz, além de sofrimento, prejuízos significativos ao paciente e, por vezes, também na vida de pessoas próximas ou familiares, portanto é um grave problema de saúde pública. Os sintomas presentes na depressão são: perda de interesse ou prazer nas atividades; alterações de peso e apetite; alterações nos padrões de sono;  agitação ou lentidão; perda de energia; sentir-se inútil ou culpado; dificuldade de concentração; e pensamentos suicidas.

A terapia cognitiva teve seu início na década de 60, com estudos de Aaron Beck com pacientes deprimidos, justamente devido a sua insatisfação com explicações psicodinâmicas sobre a depressão. Baseado em suas pesquisas, Beck pôde perceber um padrão recorrente de pensamentos negativos e postulou o modelo clássico da depressão que consiste em um padrão de cognições negativas em 3 esferas: sobre si mesmo, refletindo culpa e autocrítica (“sou incompetente”, “não mereço ser amado”, “falhei mais do que deveria”); sobre os outros/mundo e experiências de vida passadas e atuais (“as pessoa me ignoram”; “a vida não é justa comigo”) e sobre o futuro, promovendo desesperança e pessimismo (“nunca vou conseguir”; “nunca serei amado”). Beck denominou esse modelo como Tríade Cognitiva.

Além de crenças negativas nessas 3 esferas, pessoas deprimidas tendem a aplicar um viés negativo na interpretação das situações, frequentemente acompanhado de distorções cognitivas como super generalização, rotulação, abstração seletiva, inferência arbitrária e dicotomia, entre outras, contribuindo para o humor deprimido e manutenção de crenças negativas.

Pacientes deprimidos também tendem a se engajar em comportamentos disfuncionais como o uso do álcool, o que contribui ainda mais para os problemas e redução de humor.

Moorey (2010) apresentou um modelo de ciclos de manutenção na depressão o qual chamou de Flor Viciosa, que consiste em 2 ciclos cognitivos (pensamentos automáticos e autocrítica/ruminação); 2 ciclos comportamentais (comportamentos disfuncionais e evitação), 1 ciclo relacionado a sintomas físicos e motivação e 1 ciclo relacionado ao humor. Assim, um paciente deprimido que acredita “não ser importante para as pessoas” pode ter comportamentos de evitar contato, se isolando ainda mais e alimentando a crença de não ser importante; ruminando ao longo do dia que as pessoas não o procuram rebaixando ainda mais o humor e alimentando a crença negativa; tendo pensamentos negativos como “nunca sou convidado para nada” (super generalização) e se autocriticando dizendo “não faça nada de bom para as pessoas” piorando seu humor.

Uma outra característica, na depressão, são as reduzidas tentativas de lidar com os problemas, seja por falta de energia, excesso de previsões negativas, desesperança,  déficit em resolução de problemas, o que retroalimenta a desesperança pois muitas vezes os pacientes não conseguem enxergar a saída para os problemas.

E, por fim, na depressão é muito comum que pacientes tenham pensamentos negativos secundários sobre a própria depressão ou sobre os sintomas, onde os sintomas são interpretados de maneira negativa como “sou fraco, doente, inferior, preguiçoso, incompetente” levando a pensamentos negativos e autocritica como “eu não deveria me sentir assim, tenho uma vida boa, sou mal agradecido”. Essas cognições impactam no humor deprimido (sintomas primários) e também precisam ser alvo de intervenção.

Compreender o modelo cognitivo da depressão contribui para compreendermos as dificuldades apresentadas pelo paciente sob à luz de um modelo teórico e definir alvos de intervenção, com foco no que mantém ou agrava a depressão.

Referências:

BECK, Judith S. Terapia cognitiva: teoria e prática. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.

Nicoletti, E. A & Donadon, M. F. (2019). Ciclos de manutenção em terapia cognitivo comportamental: Formulação de caso, plano de tratamento e intervenções específicas (pp.13-65). Novo Hamburgo: Sinopsys.  

Moorey, S. (2010). The six cycles maintenance model: Growing a “Vicious Flower” for depression. Behavioural and Cognitive Psychotherapy, 38(2),173-184.

Westbrook, D., Kennerley, H., & Kirk, J. (2011). An introduction to cognitive behaviour therapy: Skills and applications. London: SAGE. 

https://www.who.int/health-topics/depression#tab=tab_1

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