Por Fabiana Romanini
Para a entrega efetiva da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), a implementação de intervenções embasadas em evidências é imperativa, o que exige do terapeuta formação sólida, treinamento específico e adesão consistente aos princípios e protocolos da abordagem. No entanto, paradoxalmente, observa-se que terapeutas mais experientes — mesmo dispondo de conhecimento consolidado, recursos adequados e habilidades clínicas suficientes — podem se afastar gradualmente dessas práticas. Esse fenômeno é conhecido como deriva terapêutica, caracterizando-se pela não aderência a tratamentos baseados em evidências e aos modelos para os quais o terapeuta foi treinado (Rameswari et al., 2021).
A compreensão da deriva terapêutica requer a análise de múltiplos fatores envolvidos no processo clínico. Ao longo do tratamento, o terapeuta realiza escolhas constantes: define o foco de cada sessão, seleciona intervenções e decide como e quando aplicá-las, considerando o paciente e o transtorno em questão. Mesmo diante do conhecimento acerca da eficácia de determinadas intervenções — como a exposição imaginária no Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) — o terapeuta pode optar por evitá-las, seja por receio de causar sofrimento ao paciente, seja por desconforto pessoal diante da técnica. Esse exemplo ilustra um dos fatores centrais associados à deriva terapêutica em terapeutas experientes: crenças e atitudes do próprio terapeuta (Waller & Turner, 2016). Muitas decisões clínicas são influenciadas por essas crenças, o que pode resultar em prejuízos significativos para os pacientes.
É comum, em contextos de supervisão, que terapeutas relatem distorções cognitivas relacionadas à estrutura da sessão em TCC, argumentando que a estrutura torna o atendimento excessivamente rígido ou “robotizado”, podendo comprometer a aliança terapêutica. Embora reconheçam a importância da estrutura para a efetividade da TCC, tais crenças frequentemente afastam os terapeutas dessa prática fundamental, contribuindo para o enfraquecimento da fidelidade ao modelo.
Outro fator relevante para a deriva terapêutica é a confiança adquirida com a experiência clínica, que pode levar a avaliações excessivamente positivas sobre o próprio desempenho. Evidências sugerem que muitos terapeutas superestimam suas habilidades clínicas, avaliando-se como mais competentes do que de fato são (Waller & Turner, 2016). Esse viés de autoavaliação pode reduzir a motivação para monitorar a prática, buscar feedback ou aderir rigorosamente a protocolos baseados em evidências.
Para prevenir a deriva terapêutica sem desconsiderar a flexibilidade clínica e as habilidades já desenvolvidas, torna-se essencial o engajamento contínuo em atualização profissional, por meio de cursos, congressos e leitura sistemática da literatura científica. Paralelamente, a prática reflexiva desempenha papel central ao permitir que o terapeuta identifique crenças pessoais relacionadas ao tratamento, às técnicas e à relação terapêutica. Estudos indicam que a prática reflexiva está associada ao aumento da empatia, da confiança clínica e da competência terapêutica (Rameswari et al., 2021).
Nesse contexto, a supervisão clínica constitui um recurso privilegiado para fomentar a prática reflexiva, auxiliando o terapeuta a identificar pensamentos e crenças que interferem negativamente em sua atuação (Rameswari et al., 2021). O monitoramento sistemático por meio da análise de sessões gravadas e da avaliação com escalas de competência, como a Cognitive Therapy Scale (CTS), desenvolvida por Aaron T. Beck e Jeffrey Young, possibilita a identificação de competências que precisam ser desenvolvidas ou reativadas, bem como o reconhecimento de crenças disfuncionais que influenciam decisões clínicas.
Além disso, a construção de experimentos comportamentais mostra-se uma estratégia particularmente útil, permitindo que o terapeuta teste empiricamente suas próprias crenças sobre técnicas, estrutura de sessão e impacto no paciente. Recursos clássicos da TCC voltados à autorreflexão — como o Registro de Pensamentos Disfuncionais — também podem ser aplicados ao trabalho do terapeuta consigo mesmo, favorecendo o autoconhecimento e a identificação de vieses cognitivos.
Em síntese, é fundamental que o terapeuta se engaje de forma contínua em um processo de monitoramento da própria prática, utilizando autoavaliação sistemática e feedback de supervisores ou pares. Refletir criticamente sobre pensamentos, crenças e comportamentos clínicos, bem como avaliar o impacto das escolhas terapêuticas, constitui um passo essencial para manter a fidelidade à TCC e garantir intervenções eficazes, éticas e baseadas em evidências.
Referências
Rameswari, T., Hayes, B., & Perera-Delcourt, R. (2021). Measuring therapist cognitions contributing to therapist drift: A qualitative study. The Cognitive Behaviour Therapist, 14, 1–15. https://doi.org/10.1017/S1754470X21000039
Waller, G., & Turner, H. (2016). Therapist drift redux: Why well-meaning clinicians fail to deliver evidence-based therapy, and how to get back on track. Behaviour Research and Therapy, 77, 129–137. https://doi.org/10.1016/j.brat.2015.12.005
Young, J., & Beck, A. T. (1980). Cognitive Therapy Scale: Rating Manual. Unpublished manuscript, Center for Cognitive Therapy, Philadelphia, PA.