Mindfulness na adolescência

Photo by Marco Antonio Casique Reyes on Unsplash

Por: Roberta Gonçalves Joaquim

Foto: Photo by Marco Antonio Casique Reyes on Unsplash

Vamos iniciar esse texto com uma proposta de reflexão sobre nossa adolescência!

Você se lembra da sua adolescência? Quais foram os maiores desafios que você enfrentou nessa fase? Quais são as recordações mais marcantes e afetivas que você tem dela? Acredite, a adolescência pode ser um período de vida desafiador, perturbador e maravilhoso ao mesmo tempo!

Se você tentou responder às perguntas do parágrafo anterior, deve ter se lembrado de como as coisas aconteceram naquela época. Será que a sociedade era igual a de hoje? Tínhamos os mesmos desafio e sabores que os adolescentes têm hoje? Provavelmente não! Provavelmente os desafios eram outros, a  sociedade se comportava de outra forma e a adolescência tinha outro significado.  

Para que possamos atender adolescentes em nosso consultório precisamos entender como essa fase de vida se dá na sociedade atual, quais são os desafios que eles encontram atualmente e como lidam com suas emoções e relações. Importante considerar que atualmente a adolescência tem uma duração muito maior que em décadas anteriores, hoje ela compreende o período entre os 12 e os 24 anos. Essa fase tão longa propõe desafios biológicos, emocionais, cognitivos e sociais como: alterações no desenvolvimento do cérebro, transição da dependência para independência adulta, desenvolvimento de pensamentos abstratos, identidade social, busca de relacionamentos, maturidade sexual, etc. 

Agora vamos adicionar a esses desafios, um mundo repleto de informações em tempo real, maior tempo de isolamento de convívio social por conta de jogos virtuais e mídias sociais e exigência de performance cada vez mais maiores, incluindo os temidos vestibulares para a escolha de uma profissão aos 17 – 18 anos de idade. 

Entretanto, a adolescência é a fase do desenvolvimento que mais temos coragem; onde estamos mais abertos a explorar as novidades; onde o maior engajamento social proporciona a construção de um maior número de relações de apoio; onde o aumento da intensidade emocional pode dar a oportunidade de viver a vida com plenitude da energia vital; e a exploração da criatividade pode favorecer a visão do mundo de diversas maneiras. Se soubermos explorar os pontos fortes da adolescência para auxiliar nossos adolescentes a viverem essa fase da melhor maneira possível, a consequência disso será uma geração de adultos mais saudáveis. 

Uma das estratégias que podem nos auxiliar na prevenção e no tratamentos de transtornos emocionais comuns na adolescência e que utiliza os pontos fortes dessa fase, como a curiosidade, é o Mindfulness, propiciando vivenciar o aqui e o agora. Paul Stallard em seu livro “Bons pensamentos e bons sentimentos” direcionado a atendimento para adolescentes, convida os terapeutas a incluírem em seu planejamento essa estratégia e, para isso, propõe uma sequência de intervenções utilizando o acrônimo FOCUS (em inglês) para lembrar os principais passos para a prática da atenção plena:

Foque a sua atenção

Observe o que está acontecendo

Seja Curioso

Use seus sentidos

Suspenda o julgamento

De todas as estratégias descritas pelo autor na adolescência enfatizamos a “Suspenda o julgamento” por, notadamente, ser uma fase de excessivos julgamentos. A estratégia tem o objetivo de proporcionar uma relação diferente com os pensamentos, aprender a se distanciar deles, compreender que este é um movimento natural da mente e suspender o julgamento em relação ao seu conteúdo, aprendendo a apenas observar o movimento de ir e vir dos pensamentos. Essa é uma boa estratégia para ser usada na fase de vestibulares, por exemplo.

Você pode iniciar pela psicoeducação sobre mindfulness e a prática sugerida. Informe ao adolescente como se dá a prática e o convide a praticar em sessão com você, a colaboração aumenta o engajamento nas estratégias terapêuticas e experienciar a estratégia junto com terapeuta gera mais segurança.

Inicie a prática escolhendo uma posição confortável, após foque a atenção na respiração durante 1 ou 2 min, após proponha a mudança de foco de atenção para os pensamentos. Nesse momento você, terapeuta, pode guiar a prática ou utilizar áudios para auxiliá-lo no processo. Os áudios podem ser previamente gravados por você ou então utilizar de inúmeros áudios disponíveis na web. Nossas sugestões são pelas práticas guiadas dos aplicativos Tools4life e Insight Timer

Se você for guiar a prática ao vivo, sugerimos preparar um roteiro ou usar o roteiro descrito no livro, na folha de exercício nº 6. Esse exercício contém frases como: você não precisa se apegar ou deter os seus pensamentos, eles não são provas que você não é uma pessoa boa, etc. Metáforas são sempre bem vindas também na adolescência. Imaginar a mente como um rio e os pensamentos como folhas que caem no rio, ou ondas que arrebentam na praia e depois se vão e logo na sequência vem outra, ou como o mar, em dias, mais calmo ou mais agitado.

O tempo sugerido da prática é de 10 a 15 min, mas você pode iniciar com menos tempo nas primeiras sessões e depois aumentar gradualmente. Após o término da prática converse com o adolescente sobre como foi a experiência para ele, o que ele percebeu e como se sentiu. Por último,  inclua essa prática como o plano de ação da semana, incluindo qual áudio estratégia para a guiar o treino será usada.

Essa estratégia também pode ser estendida à família do adolescente.

Pratique a estratégia antes de propor ao seu paciente, essa é nossa dica de autoprática!

 

Referências:

Stallard, P.  (2021). Bons Pensamentos – Bons Sentimentos: Guia de Terapia Cognitivo-Comportamental para Adolescentes e Jovens Adultos. [[VitalSource Bookshelf version]].  Retrieved from vbk://9786558820109

Siegel, D. J. (2016) Cérebro do Adolescente . nVersos. Edição do Kindle.

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