Por: Roberta Gonçalves Joaquim
Foto: Photo by Gabe Pierce on Unsplash
Crianças e adolescentes estão inseridos em sociedades cada vez mais exigentes e por isso sofrem consequências emocionais importantes. Eles se deparam com rápidas informações, exigências de performance cada vez maiores e precoces, muitas atividades extras, acesso ilimitado a celulares e outras telas, etc.
Essas demandas levam crianças e adolescentes a desenvolverem cada vez mais transtornos emocionais como ansiedade e depressão, apresentando dificuldades na regulação emocional , permanecendo por muito mais tempo no “piloto automático”.
As crianças são especialmente curiosas, abertas a novas situações, e isso facilita o convite à prática e o aprendizado em habilidades de mindfulness. Atualmente existem algumas abordagens baseadas em mindfulness adaptadas para o público infantil e muitas pesquisas acerca da eficácia do mindfulness na intervenção com crianças.
Contudo, é importante considerar as seguintes adaptações: o tempo das práticas deve ser reduzido; maior frequência de repetições; foco em observações sensoriais e utilização de metáforas e intervenções mais lúdicas.
O livro “A prática cognitiva na infância e adolescência” traz uma intervenção intitulada “O pote de purpurina”, descrita por Tuíla M. Felinto e Tiago P. Tatton-Ramos, na qual a metáfora é utilizada para fazer uma psicoeducação sobre o mindfulness. A utilização desse recurso é sempre muito bem vinda em atendimentos infantis.
Os autores propõem a utilização de um pote transparente e diferentes cores de purpurina, cada uma representando uma determinada emoção. A partir de uma história da própria criança, ou outra com a qual se identifique, conforme as emoções vão sendo identificadas no desenrolar dessa história, uma cor de purpurina é jogada dentro de um pote com água.
Quando a história chega ao fim o pote é fechado e agitado misturando todas as cores. Com as purpurinas suspensas na água e misturadas, faz-se analogia de como nossas emoções podem ficar quando estamos agitados e podem tomar conta do nosso dia. Na sequência, o pote é deixado em repouso até que toda purpurina fique depositada no fundo do pote, possibilitando assim o repouso de todas as cores, muito semelhante quando acalmamos a nossa mente e temos a possibilidade de observá-la sem julgamento. Assim o conceito de mindfulness se torna mais compreensível para as crianças.
Outro exemplo de intervenção é a prática do “fazer consciente”, descrita por Nazaré Almeida e Carmem Beatriz Neufeld no livro “Técnicas em terapia cognitivo-comportamental com crianças e adolescentes: uma perspectiva de intervenções individuais e em grupos”.
A intervenção é sugerida para crianças a partir de 05 anos, de forma individual ou em grupo e seu objetivo é fazer a passagem do modo “piloto automático” para o modo consciente. Essa intervenção pode ter muitas variações e formas de aplicação, nesse texto iremos descrever o comer consciente.
A prática pode ser feita em colchonetes ou em cadeiras e conta com o sino de meditação no início e final da prática. Sua duração pode ser entre 1 a 10 minutos e os alimentos a serem oferecidos durante a intervenção não são informados aos participantes, geralmente frutas são bem-vindas.
Ao iniciar a prática com a distribuição do alimento sugira que a criança(s) observe suas emoções e alguns pensamentos sobre a espera em comer o alimento ou julgamento se gostam ou não do alimento oferecido. É importante lembrá-los que os pensamentos devem ser somente observados e convide-os a fazer algumas experiências com o alimento como, por exemplo, tocá-lo, cheirá-lo, passá-lo pelos lábios, olhá-lo, etc. Após esses momentos, convide-os a morder e saborear o alimento, bem devagar e com curiosidade, atentando-se a cada sensação. Após a prática é importante que todos compartilhem a sua experiência.
Para finalizar o nosso texto, lembramos que o desenvolvimento de habilidades em mindfulness pode ser estendida às famílias e escolas.
Como sugestão de autoprática, faça o mesmo treino e escreva a sua experiência.
Referências:
Caminha R., Caminha M. G, Dutra C. A. (organizadores) A prática cognitiva na infância e adolescência. – Novo Hamburgo: Sinopsys, 2017.
Lins, M.R.C & Neufeld, C.B. (organizadoras) Técnicas em terapia cognitivo-comportamental com crianças e adolescentes: uma perspectiva de intervenções individuais e em grupos. Novo Hamburgo-Sinopsys Editora, 2021.