Processamento de informações em pacientes oncológicos. 

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Por: Fabiana Romanini
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No tratamento de qualquer transtorno emocional, é fundamental compreender como o paciente processa as informações relacionadas à sua experiência. Em muitos casos, esse processamento ocorre de maneira negativa, sendo marcado por erros lógicos ou vieses sistemáticos de interpretação, amplamente descritos na literatura como distorções cognitivas.

Pacientes oncológicos não diferem, nesse aspecto, de outros pacientes atendidos em contextos clínicos diversos. Eles também podem interpretar eventos, sensações e informações médicas de forma distorcida. Dada a relevância dessas distorções para o sofrimento emocional associado ao câncer, dedicamos este texto à sua descrição e compreensão no contexto da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC).

Entre as distorções cognitivas comumente observadas em pacientes com câncer, destacam-se:

O pensamento tudo ou nada, no qual os eventos são percebidos de forma dicotômica, sem gradações intermediárias. Um exemplo frequente é a ideia de que, se não houver possibilidade de cura, então só resta desistir, como se apenas dois desfechos fossem possíveis: cura total ou morte.

A abstração seletiva ocorre quando o paciente foca sua atenção em apenas um aspecto da situação, ignorando informações relevantes. Por exemplo, ao afirmar “vou perder o seio e isso será horrível”, a paciente desconsidera a possibilidade de reconstrução mamária e concentra-se exclusivamente na retirada do órgão.

Na inferência arbitrária, o indivíduo chega a conclusões negativas com base em evidências insuficientes. Diante das incertezas inerentes ao diagnóstico oncológico, podem surgir pensamentos como “se tive câncer agora, terei novamente no futuro” ou “vou morrer, não há saída”.

A leitura mental envolve a crença de que se sabe o que os outros estão pensando. O paciente pode interpretar o olhar de um familiar como sinal de que há informações ocultas sobre sua condição ou acreditar que está sendo visto como feio ou indesejável.

A supergeneralização ocorre quando um único evento negativo é interpretado como regra. Um exame desfavorável, por exemplo, pode levar à conclusão de que todos os exames subsequentes também terão resultados ruins.

A rotulação consiste em definir a si mesmo ou aos outros de forma global e rígida. Expressões como “sou uma pessoa doente” ou “sou inválido” ilustram esse padrão de pensamento.

Já a ampliação e minimização referem-se à tendência de exagerar ou reduzir indevidamente os aspectos da doença e do tratamento. Um paciente pode minimizar um procedimento médico ao dizer que a retirada do seio foi “apenas por precaução” ou, ao contrário, ampliar suas consequências ao concluir que a mastectomia elimina qualquer chance de sobrevivência.

Essas distorções contribuem para que o paciente oncológico interprete a doença e o tratamento sob um viés predominantemente negativo, favorecendo o surgimento de pensamentos automáticos disfuncionais. Esses pensamentos influenciam diretamente as emoções, os comportamentos e as respostas fisiológicas, compondo o foco central da intervenção em TCC.

O processo terapêutico

No cuidado ao paciente com câncer, toda a equipe de saúde pode ser treinada para realizar intervenções psicológicas focais, sempre que essa necessidade é identificada. Esse treinamento pode incluir profissionais como enfermeiros, médicos oncologistas, psiquiatras e psicólogos, sendo a TCC uma das abordagens possíveis para embasar essas intervenções. Por exemplo, um oncologista pode auxiliar o paciente a avaliar, de forma mais equilibrada, as vantagens e desvantagens da continuidade do tratamento quimioterápico.

Uma das principais tarefas adaptativas do indivíduo com câncer é atribuir sentido ao diagnóstico, integrando-o à sua visão de mundo ou, quando necessário, modificando crenças prévias. Nesse contexto, observa-se frequentemente a chamada tríade cognitiva, caracterizada por uma visão negativa do diagnóstico, da capacidade de controle da doença e do prognóstico. O câncer pode ser percebido como uma sentença de morte, acompanhado de desesperança em relação ao futuro, levando o paciente a interpretar todas as informações relacionadas à doença a partir desse viés.

As distorções cognitivas, portanto, contribuem para a manutenção de esquemas de desesperança, filtrando informações potencialmente positivas de maneira enviesada. Um dia difícil pode ser generalizado como evidência de que nunca mais haverá bem-estar, ou o paciente pode adotar um pensamento dicotômico ao concluir que, se não puder viver como antes, não há mais nada a ser feito. Esse estilo de processamento mal adaptativo sustenta os pensamentos automáticos negativos, intensifica o sofrimento emocional e dificulta o uso de estratégias de enfrentamento mais eficazes.

Além disso, em alguns casos, o câncer representa uma ameaça direta à identidade do indivíduo. Quando crenças centrais estão relacionadas à aparência ou à aceitação social, alterações corporais decorrentes da doença ou do tratamento podem gerar uma visão extremamente negativa de si mesmo, reforçando sentimentos de inadequação e desvalorização.

Como a doença se desenvolve em um contexto social, torna-se essencial avaliar como o paciente interpreta o comportamento de familiares e da equipe de saúde. Se o paciente percebe expressões de pena ou rejeição, pode optar por silenciar seus pensamentos e sentimentos, afastando-se das pessoas e reduzindo sua rede de apoio. De modo semelhante, a relação com o parceiro pode ser impactada por avaliações distorcidas, o que torna importante incluir esse vínculo como foco de intervenção terapêutica.

Diante desse cenário, os objetivos da psicoterapia em TCC com pacientes oncológicos incluem:

  • Reduzir o sofrimento emocional;

  • Favorecer o ajustamento à doença e estimular um espírito de enfrentamento;

  • Promover senso de controle pessoal e participação ativa no tratamento;

  • Desenvolver estratégias eficazes de enfrentamento frente às demandas do câncer;

  • Treinar habilidades de comunicação entre o paciente e seus parceiros;

  • Desenvolver habilidades de expressão emocional, especialmente de raiva e outros afetos negativos, em um ambiente terapêutico seguro.

Referência

Oxford Guide to CBT for People with Cancer. Moorey, S., & Greer, S. Oxford; New York: Oxford University Press, 2012.

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