Por:
Fabiana Romanini
Roberta Joaquim
A entrega de tratamentos mais eficazes em TCC, com resultados comparáveis aos ensaios clínicos, não se limita apenas ao conhecimento, mas também à aquisição e maestria de habilidades e atitudes por parte do terapeuta cognitivo. Esses três elementos fundamentais constituem a base para o desenvolvimento das competências profissionais em TCC, conhecidas como competências terapêuticas.
Mas afinal, o que são competências terapêuticas?
Para abordar essa questão, é pertinente iniciar explorando as definições de conhecimento, habilidades e atitudes, consideradas dimensões essenciais das competências profissionais. Embora as definições desses elementos não sejam consenso na literatura, optamos, neste texto, por adotar as definições propostas por Zabala & Aranau (2015, p.01), que concebem competências profissionais como “uma intervenção eficaz em diferentes áreas da vida, por meio de ações nas quais componentes atitudinais, procedimentais e conceituais são mobilizados, ao mesmo tempo e de forma inter-relacionada”. Além disso, as definições de conhecimento, habilidades e atitudes propostas por Wright, Brown, Thase e Basco (2019) e Sudak et al. (2001), adaptadas das diretrizes da American Association of Directors of Psychiatric Residency Training (AADPRT), são consideradas pertinentes para a prática, ensino e supervisão em TCC, proporcionando critérios mensuráveis, observáveis e alcançáveis.
A importância de compreender essas definições reside no fato de que, para aprender e aplicar a TCC de maneira eficaz, manter-se atualizado sobre as melhores práticas e assegurar a autoeficácia e segurança dos clientes, é fundamental desenvolver competências profissionais. Segundo Wright, Brown, Thase e Basco (2019), existem três motivos principais para que os terapeutas busquem o desenvolvimento dessas competências: 1) alcançar melhores resultados clínicos; 2) a importância do conhecimento e da experiência do terapeuta para o cliente, estabelecendo e mantendo uma relação terapêutica segura; e 3) a possibilidade de experimentar maior satisfação no trabalho diário, à medida que se tornam mais proficientes na TCC, oferecendo maior auxílio aos pacientes.
Ao longo da carreira, é crucial considerar o desenvolvimento contínuo das competências profissionais por meio de workshops, cursos, supervisão clínica, entre outras abordagens. Esse processo não deve ser encarado como algo pontual, mas sim como uma jornada contínua ao longo da vida profissional, adaptando-se às diferentes necessidades que surgem em cada etapa. A supervisão clínica desempenha um papel vital nesse processo, proporcionando o desenvolvimento contínuo das competências para alcançar a expertise.
Diversos teóricos contribuíram para a descrição e definição das competências profissionais em TCC. Destacamos os trabalhos de Roth e Pilling (2007), que descreveram mais de cinquenta competências divididas em cinco domínios específicos e de Roth, Calder e Pilling (2011), que abordaram competências pertinentes ao terapeuta em TCC infantojuvenil, considerando seis domínios, dois deles relacionados a competências de suporte. Esses frameworks de competências não apenas orientam os treinamentos em TCC, mas também ajudam os terapeutas a compreenderem suas áreas de domínio e identificar lacunas em seu conhecimento, direcionando o processo de aprendizagem.
Além disso, foram desenvolvidas medidas de avaliação objetivas para auxiliar no desenvolvimento de competências e fornecer feedback em supervisões clínicas. As escalas, como a Cognitive Therapy Rating Scale (CTRS) de Young e Beck (1980) para adultos, a Cognitive Therapy Scale- Revised (CTS-R) de Blackburn, Milne e Reichelt (2000), e a Cognitive Therapy Rating Scale for children and adolescents (CTRS-CA) de Friedberg e Thordarson (2016) para a clínica infantojuvenil, refletem esforços para medir e aprimorar as competências terapêuticas em TCC. Essas escalas proporcionam métricas valiosas para a avaliação e feedback do supervisor bem como autoavaliação do supervisionado em supervisão clínica, possibilitando a promoção e refinamento contínuo das competências clínicas.
Portanto, compreender e desenvolver competências terapêuticas em TCC é um processo contínuo e ativo, envolvendo a participação ativa do terapeuta em sua própria aprendizagem, momentos de autoavaliação e o feedback construtivo proporcionado por supervisores capacitados. Essas práticas contribuem para que o terapeuta aplique a TCC de acordo com os princípios fundamentais estabelecidos, refletindo o compromisso com a eficácia clínica e o bem-estar dos clientes.
Dejamos que esse texto tenha provocado uma reflexão em relação a sua formação como terapeuta em TCC!
Referências:
Zabala, A., & Arnau, L. (2015). Como aprender e ensinar competências. Penso Editora.
Sudak DM, Wright JH, Bienenfeld D, et al: AADPRT Cognitive Behavioral Therapy Competencies. Farmington, CT, American Association of Directors of Psychiatric Residency Training, 2001
Wright, J. H., Brown, G. K., Thase, M. E., al., e. (2019). Aprendendo a terapia cognitivo-comportamental: um guia ilustrado, 2nd Edition. [[VitalSource Bookshelf version]]. Retrieved from vbk://9788582715420
Roth, Anthony & Pilling, Stephen. (2007). The Competences Required to Deliver Effective Cognitive and Behavioural Therapy for People with Depression and with Anxiety Disorders.
Young, J., & Beck, A. (1980). Cognitive Therapy Scale: Rating Manual. Unpublished manuscript. Center for Cognitive Therapy, Philadelphia, PA.
Friedberg RD. (2018) Best practices in supervising cognitive behavioral therapy with youth. World J Clin Pediatr; 7(1): 1-8 Available from: URL: http://www.wjgnet.com/2219-2808/full/ v7/i1/1.htm DOI: http://dx.doi.org/10.5409/wjcp.v7.i1.1
Blackburn, I., James, I., Milne, D., Baker, C., Standart, S., Garland, A., & Reichelt, F. (2001). The Revised Cognitive Therapy Scale (CTS): Psychometric Properties. Behavioural and Cognitive Psychotherapy, 29(4), 431-446. doi:10.1017/S1352465801004040
Thordarson MA, Friedberg RD (2016) Fanniff A, Cordova M. The Cognitive Therapy Rating Scale for Children and Adolescents (CTRS-CA): A pilot study. Poster presentation delivered at the 50th annual meeting of the Association for Behavioral and Cognitive Therapies; New York.
Moreno, André Luiz, & Sousa, Diogo Araújo De. (2020). Adaptação transcultural da cognitive therapy rating scale (escala de avaliação em terapia cognitivo-comportamental) para o contexto brasileiro. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 16(2), 92-98. https://dx.doi.org/10.5935/1808-5687.20200014