Por: Roberta Gonçalves Joaquim
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A conceitualização cognitiva na clínica infantojuvenil também é considerada o “coração do processo terapêutico”. Ela se assemelha em muitos elementos com a conceitualização na clínica com adultos, mas incorpora dados específicos referente ao nível de desenvolvimento e questões ambientais.
Iniciaremos a nossa reflexão considerando os elementos específicos da conceitualização infantojuvenil, vamos lá:
Dificuldades ou problemas que trazem o paciente à terapia: a queixa apresentada pelo paciente e sua família pode ser compreendida a partir dos componentes cognitivos, emocionais, comportamentais, interpessoais e fisiológicos, isso torna essa compreensão bastante específica. Partir desses componentes auxilia o terapeuta a levantar as primeiras hipóteses de conceitualização. Algumas perguntas podem auxiliar o terapeuta: “Em que momentos isso acontece?”, “Me conte a última vez em que o problema aconteceu.”, O que você sentiu?”, “Algo passou pela sua cabeça quando a professora não deixou você ir ao banheiro?”, “O que fez?”, “O que aconteceu depois?” (Persons, 2008; Friedberg e McClure, 2019). Exemplificando:
Queixa: explosões quando contrariado, brigas na escola.
Componentes:
- Cognitivos: “As pessoas tem que fazer o que eu quero”
- Emocional: raiva
- Comportamental: discute e grita
- Fisiológico: sente a raiva subir pelo seu rosto, sente o rosto quente
- Interpessoal: as crianças na escola têm medo dele
Escalas de autorrelato: importante para auxiliar o terapeuta a compreender de forma mais abrangente a queixa relatada de forma verbal pelo paciente e sua família. Auxilia a compreender os sintomas em termos de frequência, intensidade e duração. Alguns exemplos de escalas: Children ́ s Depression Inventory (CDI; Kovacs, 1992); Multidimensional Anxiety Scale for Children (MASC; March, 1997), etc.
Variáveis de contexto cultural: faz parte da conceitualização a compreensão dos aspectos etnoculturais da família, pois assim o terapeuta pode compreender crenças a respeito de muitos aspectos, como essas crenças influenciam na expressão dos sintomas e se podem interferir no processo terapêutico. Algumas perguntas podem ajudar o terapeuta a pensar sobre esse contexto: “Qual a identidade etnocultural dessa família?”, “Como essa identidade se expressa nos sintomas relatados?”, “Que crenças foram desenvolvidas a partir desse contexto etnocultural?”, “Que regras, pensamentos, sentimentos são provenientes do contexto etnocultural?” (Friedberg e McClure, 2019)
História do desenvolvimento: obter informações a respeito dos marcos de desenvolvimento são de grande importância na clínica infantojuvenil, pois auxiliam o terapeuta a fazer modificações em seu plano de tratamento quando isso for necessário.
História familiar e seus relacionamentos: informações acerca das relações entre os membros da família, isso inclui: processos de vinculação, práticas disciplinares, estilos de comunicação e parentalidade. Algumas perguntas úteis: “Existem práticas disciplinares? Quais são? Funcionam? Os pais e/ou cuidadores concordam com as práticas disciplinares?”, “Qual o estilo parental?”, “Como essa família se comunica?”, “Expressão emoções?”
Relacionamentos sociais, incluindo escola e colegas: “como essa criança se relaciona com figuras de autoridades?”, “Como se relaciona com seus pares?”, “O paciente tem amigos? De qual idade? O que fazem juntos?”, “Que tipo de atividades o paciente gosta? De forma isolada ou em grupo?”
Informações acerca da aprendizagem: “O paciente apresenta bom desempenho na escola?”, “Se ele apresenta dificuldades, o que coopera para essas dificuldades?” “Quando essas dificuldades começaram ou pioraram?
Tratamentos prévios: considerarmos histórico de doenças crônicas e/ou condições médicas estressantes do próprio paciente ou de algum membro familiar como, por exemplo, câncer vivido por algum membro da família. Questões de saúde mental por qualquer membro da família e tratamentos psicoterápicos anteriores. Em relação a este último item importante investigar sobre a procura, processo e resultados observados pela família e paciente.
Informações sobre pais e cuidadores: é sempre importante compreender como os pais e/ou cuidadores pensam sobre as dificuldades de seus filhos, sobre os seus papéis e sobre psicoterapia e como manejam comportamentos problema.
Também é importante se perguntar: o paciente teve algum problema com drogas ou álcool? E com a lei? Como os pais e/ou cuidadores lidam com essas questões?;
Alguns elementos aqui descritos podem ser contemplados em uma entrevista semi-estruturada e/ou anamnese e o terapeuta pode direcionar uma sessão somente para investigar essas informações ou convidar os pais e/ou cuidadores a preencherem inventários semi-estruturados antes ou após a entrevista inicial. Depois o terapeuta pode direcionar uma sessão para compreender melhor algumas informações que sejam relevantes para construção da hipótese de trabalho.
Alguns inventários de conceitualização (existem algumas sugestões de inventários em dicas de nosso instagram) auxiliam o terapeuta a organizar todos esses elementos e assim auxiliá-lo a usar a conceitualização sessão a sessão. Lembre-se que para escolher um formulário de conceitualização o terapeuta deve considerar o quanto está treinado em fazer conceitualizações e quais literaturas conhece sobre o tema.
Desejamos que o texto tenha cooperado com a prática de vocês!
Referências:
Friedberg R. D, McClure J. (2019) M. A prática clínica da terapia cognitiva com crianças e adolescentes. Trad: Henrique Guerra; revisão técnica: Ricardo Wainer – 2° ed. Porto Alegre: Artmed.
Persons J. (2008) The case formulation approach to cognitive-behavior therapy. The Guilford Press: New York
Kovacs, M. 1992. Children Depression Inventory CDI: manual. New York, Multi-Health Systems.
March, J. S., Parker, J. D., Sullivan, K., Stallings, P., & Conners, C. K. (1997). The Multidimensional Anxiety Scale for Children (MASC): Factor structure, reliability, and validity. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, 36, 554- 565. doi:10.1097=00004583-199704000- 00019
Caminha R., Caminha M. G, Dutra C. A. (organizadores) A prática cognitiva na infância e adolescência. – Novo Hamburgo: Sinopsys, 2017.