Consequências do diagnóstico do câncer e reações emocionais.

Photo by Jason Leung on Unsplash

Por: Roberta Gonçalves Joaquim

Foto: Photo by Jason Leung on Unsplash

Quais são as consequências reais que o diagnóstico e o tratamento de câncer trazem para a vida de um paciente? Como se relacionam com os processos emocionais?

Todo diagnóstico e tratamento de qualquer doença traz alguma consequência real à vida daqueles que o recebem. Quando uma doença tão estigmatizada como o câncer vem ao conhecimento do paciente, um turbilhão de emoções é gerado podendo trazer à tona inúmeras consequências, por vezes, negativas à vida de seus portadores. 

Muitas vezes essas consequências são as maiores responsáveis em como o paciente avalia a doença e o tratamento, superando a morbidade e o medo da morte. 

Os sintomas da doença e o tratamento do câncer podem ser dolorosos e causar algum nível de sofrimento a médio e longo prazo. Pacientes relatam algum nível de dor, sofrimento, fraqueza, letargia, náuseas e vômitos, concentração e mobilidade prejudicadas, ocasionando assim perturbações e desafios reais na vida desses pacientes. 

Esses pacientes acabam por reduzir atividades que lhes proporcionam prazer e importância para os papéis que desempenham em suas famílias, na sociedade e em suas atividades profissionais. Por vezes, essas atividades têm que ser abandonadas, daí o nível de sofrimento aumenta ainda mais.

Há também consequências na aparência, que podem ser temporárias, como a perda dos cabelos e sobrancelhas, ou permanentes após tratamento cirúrgico, como a mastectomia.

Por vezes, algumas consequências são mais aceitas por uns pacientes do que por outros, independentemente de serem temporárias ou não. Exemplificando, a perda de cabelos para as mulheres representa algo muito mais significativo em sua avaliação do tratamento  quando comparado aos homens. Da mesma forma a mastectomia, pois está fortemente relacionada à identidade de gênero, com as emoções de vergonha e tristeza e com a baixa aceitação social.  Assim, em muitos casos, as consequências do tratamento podem ser a grande responsável pela recusa ao tratamento quimioterápico por mulheres.

Portanto, a forma como cada indivíduo processa esses momentos de recebimento do diagnóstico e enfrentamento do tratamento do câncer irá determinar o nível de ajustamento emocional, isso porque elas estão intimamente ligadas ao sistema de crenças sobre si, o mundo e futuro, além das crenças sociais e religiosas desses pacientes, o que influencia diretamente na sua resposta emocional. 

Respostas emocionais em pacientes oncológicos.

Emoções geralmente são identificadas e, por vezes, caladas, mas elas têm um papel central em situações nas quais todos precisamos nos adaptar, inclusive quando alguém recebe um diagnóstico como o de cancêr. As respostas emocionais específicas de pacientes oncológicos compreendem: ansiedade, raiva, culpa e tristeza.

A ansiedade precede o que consideramos a relação entre perigo e vulnerabilidade. O perigo estará presente quando a situação for percebida como ameaça. A vulnerabilidade é a percepção de que não há recursos para lidar com o perigo. Por exemplo, se um paciente acreditar que o tratamento não irá curá-lo ou que ele não terá recursos para enfrentar as consequências físicas ou desfiguração ocasionados pela doença ou tratamento sua interpretação da ameaça aumentará e, consequentemente, a ansiedade e o medo se farão presentes. Os pacientes também podem entrar em pânico com a ideia de perda de controle que a doença implica.

A raiva estará presente quando o domínio pessoal for, de alguma forma, atacado. Ou seja, quando o paciente se sentir como sendo atacado em relação à segurança física ou à autoestima ou, ainda, a certas regras e valores importantes para ele. Aqui a preocupação é com a injustiça da ameaça, por exemplo “Porque Deus fez isso comigo?”, enquanto que na ansiedade a preocupação é fruto dos possíveis efeitos da ameaça em relação a sua segurança pessoal, por exemplo, “E se o meu cabelo nunca mais crescer?”., representando assim uma forma de defesa contra alguma das consequências mais desagradáveis da doença.

A culpa traz um componente de auto culpa, uma regra foi violada e alguém é responsável por isso. A pessoa que sente culpa e raiva tenta encontrar com quem dividirá esse sentimento. A culpa pode ser proveniente de um quadro depressivo ou pode acontecer de forma independente e quando isso ocorre pode ser compreendido como uma forma das tentativas dessa pessoa em dar sentido a sua experiência. Os pacientes com câncer tendem a compreender a sua experiência com a doença por estarem sendo punidos por algum crime ou pecado e assim a culpa será a emoção mais presente. Neste contexto, se o paciente encontra alguma maneira de saber qual o seu pecado ou de ter algum controle sobre a doença ele é capaz de superar a culpa, caso contrário, ele pode se fixar no passado e ficar ruminando suas falhas durante a vida, por exemplo, “Se eu não tivesse um determinado comportamento sexual, eu não teria ficado doente” ou ainda “Sou um problema para a minha família”.

A tristeza tem uma relação íntima com a perda ou a derrota, incluindo a perda do domínio pessoal. Em uma doença como o câncer as perdas são reais como: partes do corpo, autonomia, etc. Portanto, a importância particular que cada consequência terá irá determinar o nível de tristeza desse paciente.

Para finalizar, esses pacientes podem apresentar todas essas emoções e por vezes e de acordo com o seu conjunto de crenças, uma delas será a mais presente durante sua experiência com a doença.

Esse é um tema muito rico! A Habilitá te convida a aprofundar seus conhecimentos.

Referencia: 

Moorey, S., Greer S., Oxford Guide to CBT for people with Cancer. Oxford ; New York : Oxford University Press, 2012

 

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